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terça-feira, 28 de maio de 2013

Inquietante

Nos últimos tempos, tenho dedicado minha vida profissional – e muito da pessoal também – ao meu filme Orgulho de Ser Brasileiro. Não é novidade que deixei o meu último trabalho por outras razões, entre elas a de poder respirar de novo e, como disse lá, “para acariciar meus sonhos”. Mas o filme preencheu isso tudo, esse meu tempo.

Na fase mais pesada das filmagens, abstive-me – ou o trabalho intenso me obrigou – da leitura e acompanhamento diário e normal do noticiário. Há tempos já o retomei.

E por que falo e menciono o jornalismo, o noticiário e o hábito diário de fazer um e acompanhar o outro. Porque vejo diariamente que patinamos vergonhosamente neste país cheio de “egoísmos e vaidades de grupo”, pra citar a frase do filósofo Roberto Romano que a pronuncia com muito mais propriedade no meu filme, ele que é um dos entrevistados.

A decisão de ousar e fazer o filme, sabendo eu dos custos com que arcaria, foi porque tenho um receio insuportável de imaginar que, a continuarmos da forma como estamos, nossos filhos, as próximas gerações estarão discutindo as mesmas coisas que nós sobre e sob os mesmos problemas, o que seria prova irrefutável da nossa incompetência contemporânea.

Vejamos: há quanto tempo falamos, sem consideráveis avanços, do infortúnio da escola básica pública? Há quanto tempo falamos da insegurança de nossas cidades grandes, médias e, não se surpreenda, também das pequenas?

Inverto a pergunta: há quanto tempo já nos acostumamos a conviver com isso sem que a sociedade se mexa profundamente e prefeitos, vereadores, governadores, parlamentares e o presidente de plantão – ou presidenta – se sintam pressionados a, de fato, avançar saindo dessa lama que faz uma sociedade inteira patinar?

Ouso incorrer em apenas um aspecto para a segunda ousadia em dar uma resposta.

Também no Orgulho de Ser Brasileiro há uma elucidativa e provocadora discussão sobre o hábito de quem pode blindar carros no Brasil. A filha e o neto do vice-governador de São Paulo e também ministro do governo federal (pode isso?), o seu Afif, poderiam estar em grave situação de saúde não fosse a blindagem do carro em que estavam  “salvá-los” de assaltantes armados.

No filme, questiona-se, sem nenhuma blindagem de hipocrisia, essa mania brasileira de blindar carros. Simoninha fala disso, Gerald também. E são corajosos e duros na abordagem.

No filme, discute-se, não muito distante disso, as cotas universitárias para negros e pobres e o contrassenso de não se ter o mesmo envolvimento, quiçá a mesma polêmica, sobre as universais e ruins vagas da escola pública brasileira básica, média, etc. Ferréz e o presidente Fernando Henrique falam disso com a propriedade que lhes é peculiar. E não imaginem que fui pelo caminho mais fácil ao abordar isso. Nem eu nem meus entrevistados.

O Orgulho é um filme que está incomodado – e incomoda – com a mesmice das discussões e das abordagens da questão social brasileira, mesmo no cinema do gênero tupiniquim favela-movie.

No Orgulho não se explora de novo a imagem do pobre e da miséria brasileiros. De ambos não posso mais usar a imagem. Seria injusto, não bastasse repetitivo eque já não mobiliza, surpreendentemente. Olho para o andar acima e percebo, e também perceberão, que nossas demandas e anseios, erros e omissões, independentemente de classe socioeconômica, são muito, enormemente parecidos.

Fiz o Orgulho movido pelo incômodo pessoal com esse sentimento gritado num dia e cuspido no outro sem a menor decência, de quem o grita ou cospe, de respeitar verdadeiramente qualquer dos sentimentos que o motivou.

Fiz o Orgulho movido pelo incômodo de tentar fazer de outra forma o debate avançar de um jeito verdadeiro e produtivo. E comunguei isso, respeitando a diversidade de opiniões, com meus 16 entrevistados, todos inabalavelmente compromissados com a honestidade intelectual.

Fiz o Orgulho pra provocar o incômodo que move e porque tenho receio que o estado brasileiro, que sempre dá pela metade ao ofertar com justiça uma vaga na universidade para o filho mais velho e expor o irmão mais novo a uma escola básica precária garantindo mais 20, 30 anos de dependência e voto de cabresto modelo século 21, possa possa avançar, ainda pela lógica da metade, para uma ideia pitoresca: conceder uma bolsa blindagem a todos os carros e armaduras dos brasileiros sem discutir e enfrentar verdadeiramente os motivos da violência.

Se chegarmos a isso, o inquietante se transformará no insuportável, no indecente, no incompetente, no, em…etc.

Em tempo: com o o filme pronto, dedico-me agora a distribui-lo, ainda de forma independente bancando os custos disso pessoalmente porque o projeto não contemplou verbas de distribuição. Manterei-os informados por aqui. www.orgulhodoc.com.br

 

 

Comentários de “Inquietante”

  1. Mauro P. Silva disse:

    Olá Pioto, perdão pela pretensa intimidade, ela é fruto dos anos a fio ouvindo-o na CBN, o fato é que devido a minha atividade apenas me ressenti pela sua ausência nas ondas do rádio sem investigar as razões, contudo muito me orgulho pelas suas escolhas, e por saber que faz sentido e é coerente obviamente, uma vez que sua fala apesar das censuras brancas dos veículos de comunicação sempre apontava para este caminho que tomou. É isso meu querido seja feliz e acompanharei sua nova trajetória. Que impressionante não Pioto? você captou os sinais deste momento que vivemos antecipadamente. Abraços Mauro

    • Orgulho Brasileiro disse:

      Mauro, meu caro
      De forma alguma! Um prazer!! O fato de eu ter saído à época é porque precisava de ares novos. Em algum momento as coisas podem mudar, melhorar e até voltar. Mas naquele momento, precisava sair. E saí por conta própria.
      Sobre o filme e “captar” os sinais do momento, é algo muito interessante porque, solitário nos meus pensamentos, comecei tudo há muito tempo. O projeto do filme vem de 2007, 2008…embrião ainda. Formatei-o em 209, 2010. Fui para a captação em 2011, que só consegui os primeiros recursos em maio de 2012, quando comecei a fazer o filme. E o fiz em 10 meses, concluindo em março de 2013 bancando do próprio bolso os custos adicionais, para não atrasar o filme. E agora ele está aí. E além de uma distribuição convencional em cinema, que não é fácil, tem também a distribuição às escolas, etc, algo também não fácil, por incrível que possa parecer. Mas são desafios para se construir um país melhor de verdade. Obrigado pela sua mensagem. Muito lisonjeado que me escreva. Abraços, Piotto

  2. Marli Arruda disse:

    Piotto,
    Ainda não assisti seu filme, apenas o trailer, e posso assegurar que sua incomodação é muito, mas muito pertinente.
    Confesso a você, que não tenho orgulho de ser brasileira, por ver um povo tão acomodado diante do caos.
    Parece-me que sua inquietação ecou na mente do jovens brasileiros, visto as grandes manifestações que tivemos. Até parece que você pensou e fez este filme em apenas alguns dias….rsrsrs.
    Parabéns pela sua iniciativa. O Brasil precisa de pessoas como você.
    Grande abraço, sua Fã
    Marli Arruda

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