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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

São os brasileiros os culpados e os inocentes

Tenho por certo que a média dos brasileiros pensa igual e de forma deletéria sobre o país e sobre si próprios.

Na média, e falo em 80, 90% de nós, o pensamento é semelhante e tem valores praticamente iguais.

Indiferente de classe social, nível de educação, localização geográfica nas cinco regiões deste país ou entre os brasileiros espalhados pelo mundo, vivendo legalizados ou não, a média dos brasileiros pensa de forma muito parecida, beirando a igualdade e, insisto, de forma deletéria sobre sua sociedade. Pensa e age assim, consciente ou inconscientemente, mas não menos culpada.

A média dos pobres, dos de classe média, nova ou antiga, dos ricos ou dos muito ricos pensa do mesmo jeito sobre o país. Estatisticamente seria impossível um só grupo social, rico ou pobre, azul, verde ou amarelo, ser responsável único por essa sociedade em que vivemos. A sujeira das ruas, a escola ruim, a má formação, a esperteza maléfica, a partidarização conveniente em detrimento da politização, o individualismo em detrimento do coletivismo não vem de um só grupo e nem de uma minoria, qualquer que seja ela.

A constatação real e crua é que a maioria dos brasileiros sabota o Brasil e sua sociedade. A maioria dos pobres, dos de classe média nova e antiga, dos ricos novos e quatrocentões faz mais mal que bem ao país e a si próprios enquanto sociedade.

Por outro lado, uma minoria em todos esses grupos ainda mantém esse país com algum nível de cidadania coletiva e esperança de futuro. Como ‘maioria’ significa e é maior que ‘minoria’, por razões semânticas e estatísticas, a sensação de desesperança baseada na realidade degradante tende a ser maior. Isso explica a desmotivação que nos assola quando olhamos ao redor. Por outro lado, como a minoria cidadã, embora pequena, existe e resiste, o país ainda persiste e gera no fundo de nós alguma esperança e o desejo de se envolver na discussão como cada um fez aqui e o faz cotidianamente na sua vida. Discute e age, é bom que se diga.

É essa minoria, e só essa gente, que promove grandes coisas, tem grandes ideias de desenvolvimento civilizatório, faz a vida ficar melhor ou menos ruim.

Mas a equação para explicar o Brasil e os brasileiros, a realidade e o sonho é matemática e semântica pura e simplesmente. Parece difícil, mas não é, apesar do resultado desagradável.

E a solução é igualmente matemática e semântica: fazer da minoria uma maioria e, consequentemente, da maioria atual uma minoria futura.

E como fazer isso? As soluções são várias. A primeira é trocar a mentira pela verdade. A começar de cada um de nós. A fantasia conveniente pela realidade presente. Não se conserta nada que não se admite o problema, o erro.

Tão espertos somos que cada vez que percebemos o erro e ele passa por nós como parte dele, o discurso é apontar o dedo para o vizinho da rua, do prédio, da classe social, etc.

Um exemplo:

Os “rolêzinhos” tão discutidos atualmente, muitas vezes de forma vesga, são horrorosos porque alguém acha que pode ocupar em grupo um espaço que é coletivo cantando em voz alta insultante a música que seja. A natural e visceral selvageria humana se encarrega do resto ao transformar um “rolê” em arrastão.

Porém, rolêzinhos não são diferentes de quando bacaninhas atropelam banhistas na praia com seus jet sky ou avançam calçadas a frente, sem respeitar o pedestre, com seus carros, sejam jipões importados ou carros populares comprados em 60 prestações. Se eu estiver num shopping e for “arrastado” por um rolezinho vou reclamar e reagir tanto quanto reclamo e reajo abrindo espaço na base da força nas famigeradas calçadas da PUC ou da FAAP em que os meninos e meninas bem-nascidos ocupam ruas e calçadas sem se preocupar em garantir um mínimo espaço para que outros usem as ruas e calçadas públicas (que significa de todos) também. Só por serem jovens podem se dar esse direito, sejam eles abastados ou periféricos, com recursos ou não, com espaços de lazer ou não?

Colocar um ingrediente de luta de classes nessa discussão é de uma má fé horrorosa.

Porque isso tudo acontece pelo simples fato de que a média de nós brasileiros, pobres, de classe média nova ou antiga, ricos novos ou quatrocentões é mal-educada, grosseira, deselegante (não no equivocado sentido de roupa que usa) e individualista.

A imprensa e os intelectuais espertos de plantão estão dando a benesse da aceitação aos rolezinhos da periferia, porque não tiveram a coragem de educar ou criticar os seus próprios filhos ou “semelhantes” sócio-econômicos lá trás. Complexo de culpa antigo e inovadora covardia.

Colocar um ingrediente de luta de classes nessa discussão e apontar apenas para um lado como o culpado é de uma má fé extorsiva em estupidez.

A conclusão disso tudo é que o melhor e o pior do Brasil são os brasileiros. Não devemos nada a ninguém de nossos talentos nem podemos culpar outros pelos nossos erros.

A hipocrisia brasileira precisa ser trocada pela cidadania brasileira.

Ambas existem e são nossas.

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